Um dos momentos de maior repercussão do último debate presidencial, na sexta-feira (23), na TV Globo, foi uma fala do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao criticar a política do governo para o salário mínimo, Flávio adaptou o ditado “dá com uma mão e tira com a outra” para “dá com uma mão e tira com os nove dedos”. A referência era ao dedo mínimo da mão esquerda que Lula perdeu num acidente de trabalho, quando era metalúrgico.
Lula interrompeu o adversário e cobrou retratação. Disse que, se havia alguém ali que conhecia o mundo do trabalho, era ele, lembrou que perdeu o dedo trabalhando à noite numa fábrica e chamou o senador de “miliciano”. Flávio pediu desculpas ainda durante o programa: “Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender.”
Deficiência e lesões no corpo não devem servir para ridicularizar ou desqualificar ninguém, apontam especialistas
O que é capacitismo
Capacitismo é a discriminação ou o preconceito contra pessoas com deficiência ou com alterações físicas e anatômicas. Ele aparece na falta de acessibilidade, mas também na linguagem: apelidos, piadas e metáforas que usam uma deficiência ou uma lesão no corpo para diminuir, ridicularizar ou desqualificar alguém. Especialistas e entidades de direitos humanos apontam como capacitista o uso de expressões pejorativas, irônicas ou debochadas sobre a condição física de uma pessoa.
No Brasil, a Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, garante direitos às pessoas com deficiência e prevê punição para a discriminação. Segundo o IBGE, o país tem cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência.
Repercussão
Nas redes sociais, pessoas com deficiência criticaram a fala, e a hashtag #somostodos9dedos ganhou força. Jornais estrangeiros, como os italianos La Stampa e La Repubblica, a agência ANSA e o espanhol El País, também noticiaram o episódio.
Apoiadores do senador afirmam que a frase foi um trocadilho sobre política econômica, e não uma ofensa, e citam falas antigas do próprio Lula também criticadas como capacitistas.
Com informações do Terra, do Nexo e da Tribuna do Sertão.
Fotos: Ricardo Stuckert/PR, CC BY 2.0, e Agência Senado, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Montagem: Bauru Online, CC BY-SA 4.0.