A aceleração da transição energética e a eletrificação global da frota automotiva deflagraram uma profunda mudança na geopolítica dos recursos naturais da América do Sul. Países detentores das maiores reservas mundiais de minerais estratégicos, especialmente as nações que integram o Triângulo do Lítio (Chile, Bolívia e Argentina) ao lado do Brasil, estão redefinindo os termos de cooperação com potências industriais da Ásia, Estados Unidos e Europa.nnEm vez de operar como meros exportadores de matéria-prima bruta ou concentrado mineral de baixo valor agregado, os governos sul-americanos passaram a condicionar a renovação de concessões e novos investimentos à implantação de plantas industriais de refino químico de alta pureza. A exigência abrange a conversão de salmouras e pegmatitos em carbonato e hidróxido de lítio de grau bateria em território nacional, estabelecendo as bases para a atração de fábricas de cátodos e células automotivas.nnNo caso do Brasil, a expansão das operações no Vale do Lítio, situado no Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, consolidou o país na rota dos fornecedores globais ambientalmente certificados. Diferente do método evaporítico dos salares andinos, o processo brasileiro em rocha dura utiliza circuitos fechados de reciclagem de água e matriz elétrica renovável, fator que atrai montadoras globais interessadas em assegurar cadeias de suprimento com baixa pegada de carbono.nnAnalistas do setor mineral destacam que a estratégia de verticalização industrial enfrenta desafios relevantes, como a necessidade de altos investimentos em infraestrutura logística, formação técnica de mão de obra especializada e estabilidade regulatória de longo prazo. Contudo, a formação de alianças bilaterais e a criação de consórcios regionais colocam a América do Sul em uma posição de protagonismo inédito na cadeia de suprimentos da mobilidade sustentável mundial.