Antes de virar identidade partidária, motivo de discussão em família ou rótulo de campanha, “direita” e “esquerda” eram indicações de lugar. A origem política das expressões está na Revolução Francesa: em 1789, os deputados passaram a se agrupar em lados diferentes da Assembleia conforme suas posições sobre os poderes do rei.
A referência era o presidente da sessão. À direita dele se reuniam defensores de uma autoridade real mais forte; à esquerda, os que queriam limitar esse poder. A disposição dos assentos acabou dando nome a uma divisão que atravessou séculos.
A pergunta era quanto poder sobraria para o rei
A França discutia a construção de uma nova ordem política. Como registra a história institucional da Assembleia Nacional francesa, em 17 de junho de 1789 os representantes do terceiro estado se proclamaram Assembleia Nacional. A elaboração de uma Constituição deveria limitar os poderes da monarquia.
Um dos pontos de conflito era o veto real: Luís XVI poderia impedir que uma decisão dos representantes se tornasse lei? E, se pudesse, essa resistência seria definitiva ou apenas temporária?
O historiador Michel Winock, em estudo publicado nos Cahiers français, descreve a divisão durante os debates de setembro de 1789. Defensores do veto absoluto se concentravam à direita do presidente. No lado esquerdo estavam adversários desse poder, embora também houvesse ali quem aceitasse um veto suspensivo.
As posições já eram variadas dentro de cada lado. Havia diferenças entre quem defendia uma monarquia limitada por uma Constituição e quem resistia mais amplamente às mudanças revolucionárias. Do outro lado, também não existia um programa único.
Por que aparecem datas diferentes para essa origem?
O historiador Jean-François Sirinelli situa o episódio fundador em 28 de agosto de 1789, no debate sobre a extensão da autoridade do monarca. Já a enciclopédia Larousse destaca a sessão de 11 de setembro, ligada à discussão do veto.
Por isso, é mais preciso associar o nascimento dos termos àquele conjunto de debates de 1789 do que imaginar uma cerimônia de criação das duas ideologias. Primeiro veio uma separação de lugares e posições parlamentares; a transformação desses nomes em identidades políticas duradouras foi posterior.
A esquerda de 1789 já era socialista?
Não. Aplicar os partidos e programas atuais àquela Assembleia seria um anacronismo. O Dicionário da Academia Francesa situa o desenvolvimento do socialismo no século XIX, no contexto das transformações provocadas pela Revolução Industrial.
A Larousse lembra que uma das primeiras esquerdas francesas era liberal, defensora da herança revolucionária. Mais tarde, o surgimento de correntes republicanas, radicais e socialistas mudou as fronteiras entre os grupos. Ideias e movimentos que ocuparam a esquerda em determinado momento puderam passar à direita em outro.
Os nomes permaneceram; as disputas mudaram
Sirinelli chama atenção para esse movimento histórico: o significado de direita e esquerda depende das questões em disputa em cada época. Não se pode estudar dois séculos de política usando uma definição fixa, como se os campos nunca tivessem mudado.
Hoje, as expressões ajudam a localizar posições, mas não substituem o exame das propostas. Para compreender um partido ou candidato, é necessário observar o que defende, quais políticas pretende executar e em que contexto atua.
A origem dos nomes, portanto, está nas cadeiras de uma Assembleia. O conteúdo que carregam foi sendo construído na história.
Imagem de destaque: “A tomada da Bastilha, em 14 de julho de 1789”, de Jean-Baptiste Lallemand, cerca de 1789, óleo sobre tela. Acervo Paris Musées / Musée Carnavalet, inventário P1718. Reprodução disponibilizada sob CC0. A obra ilustra o período revolucionário; não representa o debate parlamentar que deu origem aos termos. Veja a pintura completa em alta resolução.