ANÁLISE • ECONOMIA, IDEOLOGIA & REALIDADE SUL-AMERICANA – Durante os últimos anos, tornou-se um clichê recorrente nas redes sociais da direita brasileira, em canais de consultores de relocação patrimonial e nos discursos de parlamentares bolsonaristas batizar o Paraguai como a “Suíça da América Latina”. Na vitrine vendida a empresários, produtores rurais e investidores do interior paulista e do Sul do Brasil, o país vizinho surgia como um oásis intocado do livre mercado: impostos baixos, Estado enxuto, ausência de amarras regulatórias e um presidente – o economista conservador Santiago Peña – tratado como aliado ideológico exemplar. Nesta quinta-feira (5 de novembro de 2026), porém, a imagem de policiais cercando a sede lacrada do Ueno Bank em Assunção e a renúncia de Peña sob acusação de fraude bancária e captura de fundos previdenciários escancararam o abismo entre o panfleto ideológico e a estrutura real do capitalismo de compadrio paraguaio.
A origem do slogan: a regra do “10-10-10”, a Lei de Maquila e o marketing tributário
O apelido de “Suíça da América Latina” (ou “Suíça sul-americana”) não nasceu por acaso: ele foi construído em cima de três pilares tributários reais da legislação paraguaia que, isolados do contexto institucional do país, funcionaram como peça publicitária perfeita para o discurso ultraliberal brasileiro:
- O tripé tributário “10-10-10”: O Paraguai consolidou um sistema de alíquotas nominais máximas de 10% para o Imposto de Renda de Pessoa Física (IRP), 10% para o Imposto de Renda Empresarial (IRE) e 10% para o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), além de isentar rendimentos obtidos no exterior (tributação territorial);
- A Lei de Maquila (Lei nº 1.064/1997): O regime especial que permite a indústrias estrangeiras importar matéria-prima e maquinário sem impostos e exportar produtos manufaturados pagando um tributo único de apenas 1% sobre o valor agregado no território paraguaio, somado à energia elétrica barata de Itaipu;
- O grau de investimento e a vitrine política: Quando a agência de classificação de risco Moody’s concedeu ao Paraguai o selo de bom pagador (grau de investimento Baa3) em julho de 2024, sob a gestão de Santiago Peña, influenciadores financeiros, coaches de “bandeirismo fiscal” e políticos ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao governador Tarcísio de Freitas passaram a apontar Assunção e Ciudad del Este como o modelo que o Brasil deveria copiar.
No auge dessa euforia retórica, caravanas de empreendedores brasileiros cruzaram a fronteira em busca de residência fiscal expressa, seduzidos pela promessa de que menos regulação estatal significava automaticamente maior segurança jurídica e eficiência de mercado.

O choque de realidade: liberalismo de fachada ou capitalismo de compadrio?
O que a propaganda da “Suíça sul-americana” sempre omitiu é um princípio elementar da história econômica e institucional: a Suíça não é próspera e segura apenas por ter impostos competitivos, mas por possuir supervisão bancária implacável, Judiciário independente e separação rigorosa entre o patrimônio público e os negócios privados dos governantes. No Paraguai, a baixa carga tributária convive historicamente com instituições frágeis, hegemonia quase ininterrupta de um único partido (a Asociación Nacional Republicana, o Partido Colorado, no poder há mais de sete décadas com brevíssimo hiato) e concentração econômica em mãos de oligarquias políticas.
O colapso do Ueno Bank, detalhado em reportagens da Folha de S.Paulo e do Ministério Público paraguaio, é a radiografia mais didática de como funciona esse “livre mercado” sem freios institucionais:
- O presidente era sócio do banco: Santiago Peña manteve participação societária de 1,58% na Ueno Holding (controlada pelo Grupo Vázquez) até março de 2025, já em pleno exercício da Presidência da República;
- Porta giratória no Banco Central: Ao assumir o governo em 2023, Peña nomeou para presidir o Banco Central do Paraguai (BCP) – o órgão responsável por fiscalizar todos os bancos do país – justamente Carlos Carvallo, que até a véspera era o presidente-executivo do próprio Ueno Bank;
- Injeção massiva de dinheiro estatal no banco privado: Sob a gestão Peña, o Ueno Bank passou a administrar mais de US$ 850 milhões (R$ 4,7 bilhões) em recursos públicos, incluindo os fundos do Instituto de Previdência Social (IPS) que garantem a aposentadoria de 32 mil trabalhadores paraguaios;
- Empréstimos para si mesmo e fraude de US$ 74,4 milhões: Quando a inadimplência de empréstimos concedidos a empresas ligadas aos próprios donos do banco ameaçou o balanço, a instituição simplesmente emprestou US$ 76 milhões a empresas de fachada e coligadas para que uma firma do mesmo grupo (a Vinanzas SA, que tinha apenas US$ 93,8 mil em caixa no dia anterior) comprasse a carteira podre de US$ 74,4 milhões do próprio banco.
“Mexeram no dinheiro de milhares de trabalhadores que ralaram a vida inteira, e com o dinheiro das pessoas não se brinca.”
Ricardo Estigarribia, líder oposicionista do PLRA, sobre o bloqueio das contas de 2,9 milhões de clientes do Ueno Bank
Os números que não cabem no meme da “Suíça”
Além da fragilidade regulatória revelada pela quebra do maior banco digital do país – onde o índice de solvência derreteu para 5,56% antes que a autoridade monetária agisse e oito executivos acabaram presos – , os indicadores sociais e estruturais do Paraguai desmontam qualquer comparação séria com uma economia desenvolvida europeia:
Com uma arrecadação tributária que gira em torno de 10% a 11% do Produto Interno Bruto (PIB) – uma das mais baixas do continente – , o Estado paraguaio padece de subfinanciamento crônico em infraestrutura viária, saneamento básico, educação pública e saúde hospitalar. Não por acaso, dezenas de milhares de cidadãos paraguaios e “brasiguaios” cruzam diariamente a fronteira para buscar atendimento médico de média e alta complexidade nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) em cidades brasileiras do Paraná e do Mato Grosso do Sul.
Mais de 60% da força de trabalho paraguaia permanece na informalidade, sem cobertura previdenciária, enquanto no ranking de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional o país figura sistematicamente entre os piores colocados da América do Sul (ao lado de nações com grave deterioração institucional), tendo inclusive seu homem mais poderoso – o ex-presidente e presidente do Partido Colorado, Horacio Cartes – sido alvo de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sob acusação de corrupção significativa.
A lição para o empreendedor brasileiro
Para o empresário legítimo que investe, produz e gera empregos – seja no interior de São Paulo ou no comércio exterior do Mercosul – , a crise institucional de novembro de 2026 em Assunção deixa uma lição cristalina. Alíquotas tributárias reduzidas e regimes aduaneiros competitivos são instrumentos econômicos válidos, mas jamais substituem a solidez de um Banco Central autônomo, de órgãos de controle técnico desvinculados de grupos políticos e de regras claras contra o conflito de interesses.
Quando os quase 3 milhões de correntistas do Ueno Bank acordaram na última terça-feira com seus cartões bloqueados, aplicativos fora do ar e agências cercadas pela polícia, descobriram da pior maneira que a “Suíça da América Latina” vendida nos vídeos da internet não passava de uma miragem ideológica construída sobre um castelo de cartas financeiro.
Fontes e Referências Consultadas: Análise jornalística baseada nos dados oficiais do Banco Central do Paraguai (BCP), Ministério Público do Paraguai e reportagens sobre a crise do Ueno Bank e a renúncia de Santiago Peña publicadas em 4 e 5 de novembro de 2026 pela Folha de S.Paulo (C-Level Finanças), Folha Negócios e UOL Internacional.