INTERNACIONAL • CRISE POLÍTICA & FINANCEIRA NO MERCOSUL – O presidente do Paraguai, o economista conservador Santiago Peña (Partido Colorado), anunciou na tarde desta quinta-feira (5 de novembro de 2026) a sua renúncia ao cargo em meio ao colapso e à intervenção decretada no Ueno Bank, maior banco digital do país, com cerca de 2,9 milhões de clientes. O pedido de demissão foi divulgado em pronunciamento em vídeo nas redes sociais no exato momento em que a Câmara dos Deputados paraguaia analisava a abertura de um processo de impeachment que já contava com o apoio de 79 dos 80 parlamentares, incluindo a bancada do ex-presidente Horacio Cartes. Apesar da carta de renúncia, líderes da oposição afirmam que não devem aceitá-la e exigem a conclusão do juicio político para impedir que Peña preserve prerrogativas de foro como senador vitalício.
A fraude contábil de US$ 74,4 milhões com dinheiro do próprio banco
O estopim da queda de Santiago Peña foi a revelação, pelo Ministério Público do Paraguai e pela Superintendência de Bancos do Banco Central (BCP), de uma complexa engenharia de fraude contábil dentro do Ueno Bank, controlado pelo Grupo Vázquez (liderado pelo empresário Federico Miguel Vázquez). Conforme reportado pelos portais C-Level da Folha de S.Paulo e UOL, com base nos jornais paraguaios Última Hora e ABC Color, a instituição simulou a venda de uma carteira de créditos podres de US$ 74,4 milhões usando recursos que saíram dos cofres do próprio banco.
Segundo a investigação da Procuradoria, sob pressão dos órgãos reguladores, o Ueno Bank precisava limpar de seu balanço créditos concedidos a empresas ligadas aos seus próprios controladores (como Grupo Hendy, Grupo M e MOWI). Em 15 de junho de 2026, essa carteira de US$ 74,4 milhões foi adquirida pela empresa Vinanzas SA, que posteriormente o Ministério Público descobriu pertencer ao mesmo grupo do Ueno Bank e que possuía apenas US$ 93,8 mil de saldo bancário na véspera da operação milionária.
Para fabricar o dinheiro da compra, entre os dias 11 e 15 de junho o próprio Ueno Bank liberou empréstimos milionários para um conjunto de empresas intermediárias: US$ 10 milhões para a Technoma, US$ 10 milhões para a La Tropa Fletes, US$ 35 milhões para a HD Invest, US$ 20 milhões para a Satec e US$ 6,8 milhões para outras companhias. Horas depois, essas empresas repassaram US$ 76,06 milhões para a Vinanzas SA (diretamente ou por meio do Grupo Vázquez), que devolveu US$ 74,4 milhões ao Ueno Bank simulando a quitação da carteira.
“Essa situação impediria conhecer o estado real de sua situação patrimonial, uma vez que sua carteira teria sido adquirida pela própria instituição financeira.”
Ministério Público do Paraguai, em relatório sobre a fraude de US$ 74,4 milhões no Ueno Bank

Intervenção no Ueno Bank, 8 presos e risco para 32 mil aposentados
A descoberta da manobra derrubou o índice de solvência do Ueno Bank para 5,56% – menos da metade do mínimo regulatório de 12% exigido pela legislação paraguaia. Na terça-feira (3 de novembro), a diretoria do Banco Central do Paraguai decretou por unanimidade a intervenção e o fechamento das agências, conforme detalhado pela Folha de S.Paulo.
- Prisões na cúpula financeira: Oito dirigentes ligados ao Ueno Bank foram presos preventivamente – incluindo o presidente, dois vice-presidentes e o fundador da instituição – e outras 19 pessoas de empresas citadas no esquema são investigadas pelo Juizado Penal de Garantias Especializadas em Delitos Econômicos;
- Queda do presidente do Banco Central: Na terça-feira (03/11), o presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo (que havia saído justamente da presidência do Ueno Bank em 2023 para chefiar o BC por indicação de Peña), foi forçado a renunciar, sendo substituído por Raúl Vera Bogado;
- Fundos públicos e previdenciários retidos: Além de congelar o acesso de 2,9 milhões de correntistas a caixas eletrônicos e aplicativos, o banco administrava mais de US$ 850 milhões (cerca de R$ 4,7 bilhões) em recursos públicos, incluindo verbas do Instituto de Previdência Social (IPS) que afetam diretamente cerca de 32 mil aposentados;
- Fundo Garantidor: Após aprovação de lei de emergência no Congresso na quarta-feira (04/11), o Banco Central iniciou a devolução antecipada pelo Fundo de Garantia de Depósitos até o teto de 228,3 milhões de guaranis por cliente (cerca de US$ 38 mil ou R$ 205 mil), cobrindo 97% dos correntistas em até cinco dias úteis.
Oposição rejeita renúncia e exige impeachment; vice Pedro Alliana sobrevive
A situação política de Santiago Peña tornou-se insustentável porque o próprio presidente foi acionista da Ueno Holding (detendo cerca de 1,58% do capital) até março de 2025, período em que seu governo direcionou centenas de milhões de dólares de depósitos estatais e previdenciários para a instituição. Quando o ex-presidente Horacio Cartes, líder do Partido Colorado e padrinho político de Peña, anunciou nesta quinta-feira que a bancada governista de 36 deputados votaria a favor do impeachment por não compactuar com “o roubo dos fundos públicos, privados e dos aposentados”, o placar pró-impeachment chegou a 79 dos 80 deputados.
Em seu pronunciamento de renúncia no X, Peña declarou que deixava o cargo “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”. Contudo, conforme noticiado pelo UOL, parlamentares da oposição – liderados pelo Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) – anunciaram que não pretendem aceitar a carta de renúncia no Congresso e exigem a votação formal do impeachment, mecanismo que retira de Peña a imunidade e o cargo de senador vitalício para que responda criminalmente à Justiça comum.
Em votação separada realizada na tarde desta quinta-feira (05/11), a Câmara dos Deputados rejeitou por 48 votos a 30 o pedido de impeachment contra o vice-presidente Pedro Alliana (Partido Colorado), consolidando-o como o sucessor constitucional para assumir o comando do Palácio de López.
Quem é Santiago Peña, o economista conservador que caiu em três anos
De acordo com o perfil traçado pelo UOL, Santiago Peña Palacios, de 47 anos, construiu sua carreira como economista formado pela Universidade Católica de Assunção com mestrado em Administração Pública pela Universidade Columbia (EUA). Ex-economista do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, membro da diretoria do Banco Central do Paraguai e ministro da Fazenda (2015-2017) no governo de Horacio Cartes, Peña também atuou como diretor do Banco Basa (pertencente ao grupo de Cartes) antes de vencer as eleições presidenciais de abril de 2023.
Celebrado no exterior por grupos liberais e conservadores como um tecnocrata pró-mercado que levou o Paraguai ao grau de investimento da agência Moody’s em julho de 2024, Peña deixa o poder marcado pela simbiose entre o Estado paraguaio e conglomerados financeiros privados ligados ao seu próprio círculo político e empresarial.
Fontes Primárias e Reportagens Consultadas: Matéria elaborada com base nas apurações do Ministério Público do Paraguai, Banco Central do Paraguai (BCP) e reportagens publicadas em 5 de novembro de 2026 pelo UOL Internacional (reação da oposição e perfil de Santiago Peña), C-Level / Folha de S.Paulo (Negócios) e Folha Finanças.