ECONOMIA • TECNOLOGIA, CONCORRÊNCIA & GASTRONOMIA – A disputa bilionária pelo mercado brasileiro de entregas de refeições chegou aos tribunais. O iFood protocolou uma ação judicial no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) contra a plataforma Keeta, braço internacional da gigante chinesa de comércio eletrônico e entregas Meituan, acusando a concorrente de condutas anticompetitivas, prática de preços predatórios e “aliciamento ilícito” de restaurantes parceiros. Conforme noticiado nesta quinta-feira (5 de novembro de 2026) pelo portal Poder360, o iFood pediu que a Justiça nomeie um perito para realizar uma auditoria econômico-financeira sobre o volume de subsídios injetados pela matriz chinesa no Brasil, enquanto a Keeta rebateu acusando o iFood de usar o Judiciário para defender um monopólio que detém cerca de 80% do setor.
A acusação do iFood: operação deficitária e o risco da “bolha de cupons”
Na petição encaminhada ao TJ-SP, o iFood sustenta que a Keeta mantém no Brasil uma operação deliberadamente deficitária, bancada por transferências financeiras diretas de sua controladora na China, com o objetivo estratégico de praticar preços abaixo do custo, capturar clientes de forma artificial e asfixiar os concorrentes locais.
Além de pedir uma perícia contábil judicial para dimensionar os subsídios aplicados pela Meituan, a empresa brasileira acusa a rival de oferecer incentivos financeiros agressivos para induzir restaurantes parceiros a romperem contratos de exclusividade vigentes com o iFood e de buscar acesso a dados comerciais confidenciais dos estabelecimentos.
“Esses subsídios são usados para oferecer cupons e descontos irracionais aos consumidores, estimulando uma falsa demanda baseada em promoções que não se sustentam no longo prazo. O aumento artificial dos pedidos cria uma ‘bolha de cupons’, que tende a estourar quando esses subsídios são suspensos, gerando efeitos graves para o setor de delivery, como o aumento de preços para o consumidor, queda no número de vendas para os restaurantes e menos trabalho para os entregadores.”
iFood, em comunicado oficial sobre a ação ajuizada no TJ-SP
O contra-ataque da Keeta: crítica ao monopólio de 80% e citação ao Cade
Em resposta oficial divulgada nesta quinta-feira (05/11), a Keeta classificou o processo judicial como uma manobra intimidatória da plataforma dominante para impedir a livre concorrência no país. Segundo o braço internacional da Meituan – que completou um ano de operação no mercado brasileiro e atua atualmente em 32 cidades, incluindo a Região Metropolitana de São Paulo – , a utilização de cupons promocionais é uma prática comercial legítima e universal para estimular a experimentação inicial pelos usuários, utilizada historicamente pelo próprio iFood.
“Com cerca de 80% de participação de mercado no Brasil, a plataforma dominante – que consolidou sua posição no país por meio de uma estratégia agressiva de cláusulas de exclusividade impostas aos restaurantes, e que sufocou os concorrentes – agora tenta minar a capacidade de uma empresa entrante de competir minimamente, e trazer para o país tecnologia de ponta e experiência de mais de 15 anos de presença global em entrega de comida.”
Keeta (Meituan), em nota oficial de resposta ao processo do iFood
A empresa chinesa acrescentou ainda que a ofensiva judicial do iFood busca “desviar a atenção das autoridades da investigação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) que enfrenta atualmente por descumprimento do acordo assinado com a autarquia referente a cláusulas de exclusividade”, ressaltando que o Brasil é o único grande mercado do mundo concentrado nessa proporção em uma única plataforma de entrega de refeições.
O que está em jogo para bares, restaurantes e consumidores do interior
Para o setor de alimentação fora do lar – que movimenta milhares de restaurantes, lanchonetes, pizzarias e entregadores autônomos em polos regionais do interior paulista como Bauru – , o embate entre iFood e Keeta é acompanhado com atenção redobrada pelas entidades de classe, como a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes):
- Poder de barganha nas taxas de comissão: Proprietários de restaurantes apontam que a entrada de um concorrente com fôlego financeiro global força a revisão das taxas de intermediação e entrega cobradas pelas plataformas, que frequentemente consomem de 12% a 27% do faturamento bruto dos pedidos;
- Fim das travas de exclusividade: A disputa jurídica no TJ-SP e no Cade define até que ponto redes gastronômicas e restaurantes locais podem operar simultaneamente em múltiplos aplicativos sem sofrer penalidades contratuais ou perda de visibilidade nos algoritmos;
- Disputa por entregadores e clientes: No curto prazo, a guerra comercial amplia a oferta de cupons de desconto e frete grátis para os consumidores e bonificações por corrida para os motociclistas e ciclistas parceiros.
Fonte Primária Consultada: Reportagem elaborada com base nas notas oficiais do iFood e da Keeta (Meituan) nos autos da ação ajuizada no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), conforme divulgado pelo portal Poder360 em 5 de novembro de 2026.