A revista científica britânica The Lancet divulgou nesta quarta-feira a décima edição do seu relatório anual sobre saúde e mudanças climáticas, intitulado Lancet Countdown, com um apelo direto às lideranças mundiais para que o aquecimento global e o calor extremo sejam formalmente declarados uma emergência global de saúde pública. O levantamento foi elaborado por 146 pesquisadores de mais de 30 países e avaliou 54 indicadores de impacto sanitário e ambiental às vésperas da Cúpula do Clima COP31.
De acordo com os dados consolidados pelo estudo, o calor extremo resultou em aproximadamente 3 milhões de mortes em todo o planeta no intervalo de oito anos posterior à assinatura do Acordo de Paris, entre 2016 e 2023. A diretora-executiva do consórcio científico, Marina Romanello, destacou que o volume de vítimas fatais equivale ao desaparecimento da população inteira do País de Gales, evidenciando que os riscos à vida humana avançam em velocidade superior às políticas de adaptação dos governos.
Salto na mortalidade e pressão sobre hospitais
O documento aponta que a média anual de óbitos provocados pelo estresse térmico aumentou cerca de 36% na última década em comparação com o período decenal anterior. Apenas no último ano fechado da série histórica detalhada, foram registradas 710 mil mortes associadas a ondas de calor no mundo, sendo mais de 70% dessas ocorrências atribuídas diretamente às alterações climáticas induzidas pela ação humana e pela queima de combustíveis fósseis.
Além das mortes diretas por hipertermia, desidratação e agravamento de quadros cardiovasculares e respiratórios, os cientistas alertam para a sobrecarga contínua das redes hospitalares durante picos de temperatura e para a perda bilionária de horas potenciais de trabalho em setores expostos ao sol, como agricultura e construção civil.
Secas severas e avanço de doenças infecciosas
O relatório destaca ainda que o desequilíbrio climático tem atuado como multiplicador de crises sanitárias simultâneas. A expansão de secas extremas por quase metade da superfície terrestre afeta a segurança alimentar e hídrica de milhões de famílias, enquanto a elevação das temperaturas médias amplia a faixa geográfica de transmissão de doenças infecciosas sensíveis ao clima, a exemplo da dengue, da malária e do vibrião colérico.
Embora o estudo reconheça que os investimentos globais em energias limpas atingiram patamares recordes, os autores advertem que o ritmo atual de transição energética permanece insuficiente para proteger as populações mais vulneráveis, exigindo que a saúde humana ocupe o centro das decisões diplomáticas na próxima conferência climática das Nações Unidas.