Uma grande ofensiva deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) destruiu quase cem embarcações e dragas utilizadas no garimpo ilegal de ouro no Rio Madeira, em Rondônia. As imagens das explosões controladas de maquinário pesado ganharam enorme repercussão nas redes sociais nos últimos dias, revelando a intensidade das ações da chamada Operação Nêmesis e reacendendo a memória sobre os períodos em que fiscais precisaram desafiar ordens superiores para queimar equipamentos do crime ambiental.
A primeira fase da operação, deflagrada no final de outubro de 2026, concentrou esforços no trecho do rio compreendido entre os distritos de Calama e São Carlos, em Porto Velho. Ao longo do leito fluvial, as equipes táticas localizaram e inutilizaram 72 embarcações, entre dragas de grande porte, empurradores, motores de sucção, geradores e bombas de alta capacidade. Dias depois, uma nova incursão das forças policiais desarticulou outros vinte pontos de extração clandestina, elevando o prejuízo financeiro das organizações criminosas a dezenas de milhões de reais.
O impacto das imagens e a estratégia de descapitalização do garimpo
Os vídeos captados durante a detonação das dragas mostram colunas de fumaça e fogo sobre a água, gerando forte comoção e curiosidade no ambiente virtual. De acordo com os investigadores, a queima imediata das balsas segue critérios técnicos previstos na legislação ambiental brasileira para impedir que o maquinário seja resgatado pelos infratores ou reutilizado em áreas vizinhas. Devido às dificuldades logísticas e ao risco de emboscadas em trechos remotos da floresta, a remoção física das dragas pesadas torna-se inviável.
Além de desarticular os pontos de extração, a operação confiscou combustível armazenado irregularmente e equipamentos de mergulho usados na lavra do leito do rio, atividade que lança grandes quantidades de mercúrio e sedimentos tóxicos na bacia amazônica, ameaçando comunidades ribeirinhas e populações indígenas.

O contraste com o passado: a resistência dos servidores no governo Bolsonaro
A naturalidade com que as forças de segurança atuam conjuntamente hoje contrasta de forma contundente com a realidade vivenciada no governo Jair Bolsonaro. Durante a gestão anterior, a cúpula do Palácio do Planalto e a direção política do Ministério do Meio Ambiente manifestaram pública oposição à destruição de maquinário apreendido em flagrantes, desautorizando os agentes de campo e restringindo as operações de inutilização de bens.
Naquela época, fiscais de carreira do Ibama precisaram atuar em permanente confronto velado com as diretrizes do próprio governo federal para fazer cumprir o Decreto Federal 6.514 de 2008. Aqueles que mantiveram a postura legalista pagaram um preço alto: coordenadores de fiscalização e chefias regionais foram sumariamente exonerados e afastados de seus cargos logo após comandarem ações de queima de dragas e tratores em terras indígenas no Pará e em Rondônia.
A destruição sistemática de dragas no Rio Madeira pela Operação Nêmesis simboliza a consolidação da política de sufocamento financeiro do garimpo ilegal como diretriz de Estado, sepultando as tentativas de blindagem de equipamentos que marcaram anos anteriores e reforçando a autoridade técnica dos servidores ambientais.