O risco que o Brasil correu: a Argentina de Milei mostra o preço social da austeridade que a extrema direita prometia

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Com a derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno, o Brasil deixou para trás um programa econômico que tinha na Argentina de Javier Milei sua principal referência. Os números do país vizinho mostram o que estava em jogo: contas equilibradas à custa de mais pobreza, salários menores e serviços públicos enfraquecidos.

Durante a campanha, Daniella Marques, coordenadora do programa econômico de Flávio Bolsonaro (PL) e cotada para comandar a economia em um eventual governo, apontou Javier Milei como exemplo em redução de burocracia e de impostos e na recuperação da capacidade de investimento. A ex-presidente da Caixa Econômica Federal colocou a Argentina como modelo para as reformas que a extrema direita pretendia fazer no Brasil. Com a reeleição de Lula, esse roteiro não será aplicado, mas a experiência argentina ajuda a medir o risco que o país correu.

A discussão exige separar duas questões: a necessidade de manter as contas públicas sustentáveis e os efeitos da velocidade, da intensidade e da distribuição dos cortes feitos para chegar lá. A experiência argentina mostra que avanços em indicadores macroeconômicos podem conviver com dificuldades persistentes para parcelas expressivas da população.

O ajuste argentino e seus resultados

Quando Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, encontrou uma economia marcada por inflação altíssima, déficits recorrentes, restrições cambiais e perda de poder de compra. Eram problemas estruturais que exigiam respostas.

O novo governo adotou uma forte contenção de despesas, com redução de subsídios, paralisação de obras públicas e reformas para ampliar a participação do setor privado.

Segundo levantamento do portal de checagem independente Chequeado, os gastos primários correntes do governo nacional caíram cerca de 30%, em termos reais, nos dois primeiros anos de gestão.

A estratégia levou a superávits fiscais e à desaceleração da inflação. A alta anual dos preços, que chegou a 211,4% em 2023, caiu para 117,8% em 2024 e para 31,5% em 2025. A economia também voltou a crescer, mas com fortes diferenças entre os setores.

São resultados relevantes. Uma análise da situação econômica, porém, não pode parar nos indicadores fiscais. A evolução do emprego, dos salários, da pobreza e da qualidade dos serviços públicos também precisa entrar na conta.

A pobreza voltou a crescer em 2026

O comportamento da pobreza argentina mostra tanto os avanços quanto os limites da estabilização.

No segundo semestre de 2023, antes da posse de Milei, 41,7% da população dos aglomerados urbanos pesquisados vivia abaixo da linha de pobreza. No primeiro semestre de 2024, na fase inicial do ajuste, o índice chegou a 52,9%.

Com a desaceleração da inflação e a recuperação parcial da renda, a pobreza recuou depois e chegou a 28,2% no segundo semestre de 2025.

Os dados oficiais do INDEC, o instituto de estatística do país, divulgados em 24 de setembro de 2026, mostraram uma reversão: a pobreza subiu para 32,3% no primeiro semestre de 2026. São 4,1 pontos percentuais a mais que no semestre anterior e 0,7 ponto acima do primeiro semestre de 2025. A indigência foi a 7,5%, ante 6,3% no fim de 2025.

A pobreza segue abaixo do nível do fim de 2023, mas a nova alta evidencia a fragilidade da recuperação social.

Controlar a inflação é fundamental para proteger a renda. Inflação menor, porém, não significa preços caindo nem garante a volta automática do poder de compra. Quando a renda não acompanha o custo de vida ou o emprego desaparece, a melhora dos indicadores monetários pode não se traduzir em melhores condições de vida.

Trabalhadores e aposentados enfrentam dificuldades

O mercado de trabalho revela outro lado da experiência argentina.

No segundo trimestre de 2026, o desemprego chegou a 7,9%, segundo o INDEC, o maior índice desde a posse de Milei. A informalidade também cresceu e atingiu 45% dos ocupados, e diferentes categorias de trabalhadores tiveram perdas salariais.

Cálculo do Instituto Argentino de Análise Fiscal (IARAF), divulgado pelo jornal La Nación em outubro de 2026, estima que os salários dos servidores públicos nacionais estão 35,7% abaixo, em termos reais, do nível de novembro de 2023. Entre os servidores das províncias, a perda é de 8%, e entre os trabalhadores formais do setor privado, de 2,3%. O mesmo levantamento mostra que os salários registrados superaram a inflação por três meses seguidos, o que indica uma recuperação ainda lenta e desigual.

A situação dos aposentados também mostra que os efeitos do ajuste não são uniformes. Segundo o Chequeado, a aposentadoria mínima, somada ao bônus que está congelado, teve perda real de 9,3% até setembro de 2026 em relação a novembro de 2023. As aposentadorias acima do mínimo, por outro lado, tiveram ganho real de 10,9%.

Esses números revelam uma questão essencial: uma economia pode melhorar suas contas públicas e, ao mesmo tempo, manter parte dos trabalhadores e aposentados com poder de compra menor que o de anos anteriores.

O desafio não é só voltar a crescer, mas garantir que o crescimento gere empregos de qualidade e chegue aos grupos que perderam durante o ajuste.

Educação e saúde: os custos que não aparecem no resultado fiscal

Os cortes também chegaram aos serviços públicos.

No ensino superior, levantamento do Chequeado publicado em maio de 2026 mostrou que os repasses às universidades nacionais no primeiro quadrimestre do ano ficaram 30,7% abaixo, em termos reais, dos de 2023. Os salários dos professores universitários caíram 8,8% reais em um ano.

Estudo do Centro de Pesquisa em Economia Nacional da Universidade de Buenos Aires (UBA), citado pela agência AFP, aponta que os recursos destinados às universidades públicas tiveram queda real de 40,5% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2023.

A redução do financiamento e a perda salarial provocaram conflitos com docentes, pesquisadores e instituições públicas, incluindo a Marcha Federal Universitária de 12 de maio. Em 15 de outubro, a quinta marcha federal desde a posse de Milei levou milhares de pessoas às ruas para exigir o cumprimento da Lei de Financiamento Universitário. A norma, que prevê repor as perdas salariais dos professores pela inflação desde dezembro de 2023, foi vetada por Milei, ratificada pelo Congresso em outubro de 2025 e ainda não foi aplicada, apesar de decisões judiciais, entre elas uma da Suprema Corte em junho. O governo afirma que recorre na Justiça e que a lei não indica de onde viriam os recursos. Esses problemas vão além do orçamento de um ano: podem afetar a formação profissional, a produção científica e a capacidade de inovação do país.

Na saúde, o Hospital Garrahan, referência em atendimento pediátrico, tornou-se um dos exemplos mais conhecidos das tensões provocadas pela austeridade, com dificuldades financeiras, saída de profissionais e conflitos salariais relatados pela agência Reuters em 2025. Os hospitais universitários também enfrentam restrições: no primeiro quadrimestre de 2026, apenas 9,3% do orçamento previsto para eles havia sido executado, segundo o Chequeado.

Reduzir despesas pode melhorar o resultado fiscal de imediato, mas a deterioração da estrutura pública e a perda de profissionais especializados podem gerar custos econômicos e sociais no longo prazo.

Uma cirurgia adiada, uma pesquisa interrompida ou um estudante que abandona a universidade são consequências que não aparecem nas estatísticas de superávit.

As crianças estão entre os mais vulneráveis

A situação da infância merece atenção especial.

De acordo com relatório do UNICEF publicado em junho de 2026, 42,3% das crianças e adolescentes argentinos viviam em famílias pobres no segundo semestre de 2025, e 9,4% em situação de pobreza extrema. São 5,1 milhões de meninas e meninos.

O organismo reconheceu a melhora expressiva em relação ao auge da crise, quando a pobreza infantil chegou a 52,7%, no segundo semestre de 2024. Mas alertou para o risco de reversão: a projeção para o primeiro semestre de 2026 era de cerca de 44,4%.

O governo Milei ampliou, em termos reais, benefícios voltados às famílias com crianças, como a Asignación Universal por Hijo (AUH). Segundo o UNICEF, sem essas transferências a pobreza infantil subiria para 46,7%, e a indigência, de 9,4% para 15,8%.

Ainda assim, a persistência de índices altos de pobreza infantil mostra que transferências de renda, embora importantes, não substituem empregos, salários suficientes e acesso a serviços públicos de qualidade.

A pobreza na infância pode comprometer alimentação, aprendizagem, saúde e oportunidades futuras. Por isso, reduzi-la precisa ser tratado como prioridade econômica de longo prazo, e não como efeito secundário da estabilização.

O risco de enfraquecer a economia enquanto se tenta equilibrá-la

Um dos principais riscos de uma austeridade muito intensa é contrair a atividade econômica num momento em que empresas e consumidores já enfrentam dificuldades.

Ao cortar investimentos, salários ou transferências, o governo também reduz a demanda por bens e serviços. As empresas vendem menos e adiam investimentos e contratações. Com menos atividade, a arrecadação pode cair, o que dificulta o próprio ajuste.

O tamanho desses efeitos depende do contexto, do tipo de despesa cortada, da confiança na economia e da capacidade do setor privado de compensar a retração do gasto público.

Na Argentina, a recuperação tem sido desigual. Enquanto agropecuária e mineração cresceram, setores que empregam muita gente, como indústria, construção e comércio, tiveram desempenho mais fraco.

O próprio acordo com o Fundo Monetário Internacional, que reconhece os avanços argentinos na estabilização, inclui o compromisso do governo de preservar o valor de benefícios como a AUH e o Cartão Alimentar. O detalhe é relevante porque mostra que responsabilidade fiscal e proteção social não precisam ser tratadas como objetivos incompatíveis.

O risco que o Brasil correu

O Brasil tem diferenças importantes em relação à Argentina, como a estrutura produtiva, o regime monetário, as instituições fiscais e o tamanho do sistema de proteção social. Por isso, não é correto presumir que medidas semelhantes trariam exatamente os mesmos resultados.

Também é preciso distinguir redução de burocracia, combate a privilégios e ganho de eficiência administrativa de cortes indiscriminados em políticas públicas.

O programa de Flávio Bolsonaro previa corte de até R$ 200 bilhões em despesas e redução do número de ministérios. Daniella Marques afirmou em outubro que a equipe não pretendia reduzir programas sociais e que o ajuste se concentraria em privilégios, como supersalários e férias de 60 dias, e em despesas administrativas. Questionada sobre como chegar à economia prometida, disse que o detalhamento caberia ao Congresso. Ou seja, o eleitor foi chamado a aprovar um corte bilionário sem saber de onde ele sairia.

A experiência argentina mostra o tamanho desse risco: lá, o ajuste também foi apresentado como combate a privilégios, e a conta chegou a aposentados, servidores, universidades, hospitais e crianças pobres.

Um programa econômico precisa explicar não só quanto pretende economizar, mas de onde sairão os recursos, quais serviços serão afetados, como os mais vulneráveis serão protegidos e quais mecanismos poderão corrigir efeitos inesperados.

O equilíbrio fiscal pode fortalecer a economia. Quando os cortes comprometem investimentos estratégicos, serviços essenciais e a renda de famílias vulneráveis, porém, seus custos podem superar o ganho orçamentário imediato.

Responsabilidade fiscal também exige responsabilidade social

A trajetória da Argentina sob Javier Milei não cabe num rótulo de sucesso ou fracasso. Houve avanços importantes na queda da inflação e no equilíbrio das contas, ao lado de perdas de renda para determinados grupos, dificuldades nos serviços públicos e uma nova alta da pobreza em 2026.

O caso mostra que a qualidade de uma política econômica precisa ser medida por um conjunto amplo de resultados, e não apenas pelo déficit público ou pela inflação.

Para o Brasil, a questão central é como construir contas públicas sustentáveis sem comprometer as condições para o desenvolvimento econômico e social.

Cortes de despesas devem ser avaliados por sua eficácia, composição, velocidade e efeitos sobre a distribuição de renda. Preservar investimentos essenciais, avaliar os resultados com transparência e proteger os mais vulneráveis são pontos centrais dessa discussão.

Com a reeleição de Lula, o Brasil não vai testar esse caminho. O desafio agora é outro: equilibrar as contas sem repetir o roteiro argentino, preservando os investimentos e a proteção social que, no país vizinho, foram os primeiros a pagar a conta.

A sustentabilidade fiscal importa. Mas também importa a sua finalidade: criar condições para que a população tenha mais estabilidade, oportunidades e qualidade de vida.

Com informações do INDEC, do UNICEF, do Chequeado, do jornal La Nación, do IARAF, da UBA e das agências AFP e Reuters. O espaço está aberto para manifestação da campanha de Flávio Bolsonaro e de Daniella Marques.
Foto: Reprodução.

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