Derrotado por Lula (PT) por uma diferença de mais de 4 milhões de votos, o senador Flávio Bolsonaro (PL) não reconheceu o resultado da eleição em pronunciamento na noite deste domingo (25). Ele afirmou que as regras foram mudadas no meio do jogo, em referência à prorrogação da votação até as 19h. A afirmação não se sustenta nos fatos e repete um roteiro perigoso para a democracia brasileira.
Pelos números do Tribunal Superior Eleitoral, Lula foi reeleito com 51,77% dos votos válidos, contra 48,23% de Flávio, com 99,89% das seções totalizadas. Segundo a Terra, é a primeira vez desde a redemocratização que um candidato que liderou o primeiro turno perde no segundo.
O que de fato aconteceu
A prorrogação foi determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, depois de denúncias de falta de ônibus para levar eleitores às urnas em Salvador, Feira de Santana, Lauro de Freitas e São Paulo. O objetivo foi um só: garantir que eleitores impedidos de chegar às seções pudessem votar. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, tinha o pedido de prorrogação nas mãos desde a tarde e não decidiu nada. Só depois da ordem de Zanin, já às 18h12, ele repassou a decisão aos tribunais regionais e orientou que as seções ainda abertas funcionassem até as 19h.
A medida valeu igualmente para todos os eleitores dessas seções, votassem em quem votassem. E há um detalhe que desmonta o discurso de Flávio: a própria campanha dele pediu ao TSE, na mesma tarde, a prorrogação da votação até as 19h em 17 municípios de São Paulo, do Paraná e de Santa Catarina, alegando chuvas e alagamentos, segundo a Exame. O candidato que agora reclama da regra pediu essa mesma regra horas antes, quando achava que ela o favoreceria.
Houve, sim, problemas no dia da votação, e o Bauru Online os registrou, inclusive a demora do presidente do TSE em decidir sobre a falta de transporte. Mas nenhum deles mudou as regras da eleição nem favoreceu um candidato. A prorrogação ampliou o direito de votar, não o restringiu.
Saber perder
Reconhecer a derrota é parte da democracia tanto quanto vencer. É o gesto que permite a transição pacífica de poder e que diz aos eleitores do lado derrotado que as instituições funcionaram. Em 2022, Jair Bolsonaro não reconheceu de forma clara a vitória de Lula; meses depois, em 8 de janeiro de 2023, apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. Em 2025, o ex-presidente foi condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado.
Ao repetir a tese de que o jogo foi alterado, Flávio escolhe o mesmo caminho. Sem apresentar provas, a afirmação alimenta a desinformação, mobiliza grupos radicalizados e coloca sob suspeita um resultado definido por milhões de votos de diferença.
O risco de instabilidade
Declarações como essa têm consequência. Elas abrem espaço para questionamentos sem base contra a Justiça Eleitoral, estimulam protestos contra o resultado e dificultam a pacificação do país depois de uma campanha polarizada. A apenas três meses de deixar o Senado e investigado no STF no caso Willer Tomaz, Flávio tem a responsabilidade de não transformar a própria derrota em crise institucional.
O resultado das urnas é claro. Cabe ao candidato derrotado respeitá-lo, e às instituições, garantir que ele seja cumprido.
O espaço está aberto para manifestação do senador Flávio Bolsonaro e do PL.
Com informações do Tribunal Superior Eleitoral, do Supremo Tribunal Federal, da Exame e da Terra.
Foto: Reprodução/vídeo.