O mercado financeiro não esperou a abertura da B3 para reagir à reeleição de Lula (PT). Na noite de domingo (25), o dólar saltou cerca de 11% no mercado futuro de Chicago e chegou ao equivalente a R$ 5,56, contra R$ 5,01 no ajuste da sessão anterior, com pico de R$ 5,68, segundo a Bloomberg Línea. Em Tóquio, onde já era segunda-feira, um fundo que replica o Ibovespa despencou 14%.
O tamanho da aposta em Flávio
A queda é proporcional à aposta. Nas últimas semanas, investidores montaram o chamado trade eleitoral, comprando ativos brasileiros na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Na sexta-feira (23), o dólar fechou abaixo de R$ 5, a R$ 4,993, e o Ibovespa terminou aos 205.082 pontos, com alta de cerca de 10% em outubro. Antes da votação, o JPMorgan projetava dólar a R$ 4,90 com Flávio e a R$ 5,50 com Lula, e a Bloomberg Economics estimava desvalorização de até 11% do real em caso de reeleição.
Para o estrategista Homin Lee, do banco suíço Lombard Odier, os mercados vão devolver boa parte do rali construído em torno de Flávio, com volatilidade alta nos próximos dias. Analistas ouvidos pelo InfoMoney não descartam queda superior a 5% do Ibovespa na abertura e até o acionamento do circuit breaker, a interrupção automática dos negócios em quedas fortes.
“Fobia progressista”?
O motivo declarado é fiscal: o mercado teme que a dívida pública continue crescendo sem medidas suficientes para estabilizá-la. A preocupação é legítima, mas a intensidade da reação diz muito sobre o humor de quem opera. O próprio programa de Flávio previa cortes de até R$ 200 bilhões sem dizer de onde sairiam, e mesmo assim foi recebido com euforia, enquanto a vitória de um governo progressista provoca pânico antes de qualquer anúncio.
Não é a primeira vez. Em 2002, o chamado “risco Lula” levou o dólar para perto de R$ 4, e a moeda recuou ao longo de 2003, quando o governo mostrou compromisso com as contas públicas. A história sugere que parte do movimento de agora é aposta desfeita e medo antecipado, não diagnóstico.
O que esperar da semana
A tendência é de pressão sobre o dólar e de Bolsa em queda nos primeiros pregões, até que o mercado à vista mostre se o ajuste noturno, feito com poucos negócios, se confirma ou se foi exagerado. Alguns pontos devem definir o rumo:
- a indicação da equipe econômica do novo mandato, a começar pelo Ministério da Fazenda;
- sinais sobre o cumprimento das regras fiscais e o controle da dívida em 2027;
- a atuação do Banco Central, que tem instrumentos como os leilões de swap cambial para conter movimentos bruscos do câmbio;
- o cenário externo, com o petróleo em alta por causa do conflito no Oriente Médio.
Há também fatores que amortecem a saída de recursos. Segundo o Lombard Odier, o Brasil segue barato em comparação com outros mercados e se beneficia do peso das commodities num momento de alta de preços.
E no bolso?
Para quem não investe, o efeito do dólar mais caro aparece primeiro no preço dos combustíveis, dos produtos importados e das viagens ao exterior. Se a alta se sustentar, ela pode pressionar a inflação nos próximos meses. Se o governo der sinais claros sobre as contas, parte do movimento tende a ser devolvida.
Este texto é uma análise jornalística e não constitui recomendação de investimento.
Com informações da Bloomberg Línea, do InfoMoney, do JPMorgan, da Bloomberg Economics e do Lombard Odier.
Foto: Rafael Matsunaga, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons (pregão da Bovespa, imagem de arquivo).