Doze dias depois de deixar o Brasil às escondidas para não entregar os passaportes, como havia determinado o ministro Alexandre de Moraes, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou uma entrevista ao jornal americano The Washington Post para atacar a Justiça Eleitoral e insinuar fraude na eleição que seu grupo perdeu. Sem apresentar nenhuma prova.
“Trump está convencido de que o Brasil não é mais uma democracia plena”, afirmou Flávio na conversa, gravada na quinta-feira (5) em Aventura, ao norte de Miami, e publicada neste sábado (7). “As instituições americanas ainda funcionam. Enquanto no Brasil, elas não funcionam mais”, disse.
Ataque ao presidente do TSE
O alvo principal foi o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, que afirmou repetidas vezes que a eleição foi limpa e que a Justiça Eleitoral não identificou irregularidades. “Garanto que ele não sabe do que está falando. Nem eu, nem você, nem ninguém que esteja assistindo, nem o presidente do Tribunal Superior Eleitoral pode dizer com 100% de certeza que não houve fraude”, declarou o senador.
É a mesma tese que o pai, Jair Bolsonaro, repetiu depois da derrota de 2022 e que terminou com a condenação a 27 anos de prisão por planejar um golpe de Estado. O próprio Washington Post lembra que o sistema eleitoral brasileiro é “geralmente considerado uma referência” na América Latina. Nunes Marques, vale lembrar, foi indicado ao Supremo pelo próprio Jair Bolsonaro.
Fuga em silêncio, discurso na casa de Trump
Flávio se recusou a explicar como saiu do país. “Nunca vou falar sobre o caminho que eu fiz”, disse. Segundo o jornal, uma fonte do alto escalão do governo brasileiro afirma que a polícia investiga se agentes dos Estados Unidos, da Argentina e de Israel ajudaram na saída, e que um ex-agente do Mossad foi visto acompanhando a van que levou o senador até a fronteira com a Argentina. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que o governo dos EUA “não esteve diretamente envolvido”.
Na mesma semana, Flávio discursou na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Mar-a-Lago, o clube de Donald Trump na Flórida. Ele está nos Estados Unidos com a mulher e as duas filhas, acolhido pelo governo Trump por razões “humanitárias”, e admite que ainda precisa “regularizar minha situação migratória”. Não vê “lógica”, segundo o jornal, em voltar ao Brasil agora.
Até aliados criticam
O Washington Post ouviu aliados que, reservadamente, chamaram Flávio de “fraco” e disseram que a fuga “foi a pior coisa que poderia ter feito”. Outro classificou a decisão como “chocantemente impulsiva”. O jornal também registra que o senador fala pouco inglês e que a experiência depois da eleição tem sido “um choque físico e mental”.
Enquanto isso, no Brasil, o mandato segue. Flávio votou à distância, dos EUA, na PEC da Segurança Pública, e o Senado ainda não informou se ele pediu licença, se terá as faltas descontadas ou se o caso irá ao Conselho de Ética. Uma ação popular na Justiça Federal pede a suspensão do salário de R$ 44 mil.
Com informações do The Washington Post, reproduzidas por Terra/Estadão e Gazeta do Povo (07/11/2026), e da Agência Brasil.
Foto: Reprodução/redes sociais (Flávio Bolsonaro em vídeo gravado nos EUA).